Especial 1º de maio: um mergulho no mercado de trabalho para PcD

“São pessoas extremamente competentes e essa quebra de paradigma tem que existir nas empresas", afirma a Analista de RH Mirian Rocha

Mercado de trabalho PcD
Mercado de trabalho PcD - Shutterstock

por Gabriela Campos
Publicado em 01/05/2021 às 08:50
Atualizado às 09:00

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Quantos colegas de trabalho com algum tipo de deficiência você já teve? Quantas vezes você foi atendido em uma loja, supermercado ou farmácia por um funcionário PcD? Eu me arrisco a responder por você: nenhum e nenhuma vez. Na nossa sociedade atual, as pessoas com deficiência infelizmente ainda não ocupam espaços significativos no mercado de trabalho. É como aquele velho ditado popular: elas são uma em um milhão.

Segundo a Base de Dados dos Direitos da Pessoa com Deficiência, só no estado de São Paulo há mais de 3 milhões de pessoas com deficiência, sendo apenas 0,30% dessa população, cerca de 9 mil pessoas, ativa no mercado de trabalho, entre os meses de janeiro e fevereiro de 2021. E aí lançamos uma nova pergunta: onde será que estão essas mais de 2,9 milhões de pessoas com deficiência e por que elas não estão ocupando os espaços que são delas por direito?

Quem é a pessoa com deficiência perante a lei?

De acordo com a Constituição Brasileira, considera-se pessoa com deficiência “aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas”.

Entre as leis existentes na Constituição e que trazem a inclusão à tona, temos a popularmente conhecida como Lei de Cotas, que trata especificamente da questão legal da inserção das pessoas com deficiência no mercado de trabalho.

Pela lei, empresas com 100 ou mais empregados são obrigadas a preencher de 2% a 5% dos seus cargos com beneficiários da Previdência Social reabilitados ou pessoas portadoras de deficiência. De acordo com determinação, uma empresa com 200 empregados precisa ter em sua equipe de trabalho pelo menos quatro funcionários PcD. Quando não cumprida a lei, a empresa está passível de receber multa.

Como está o mercado de trabalho para PcD hoje?

Estamos comemorando neste sábado o Dia do Trabalho, mas sabemos que no atual cenário de crise econômica, muitos trabalhadores infelizmente não tem um trabalho para celebrar.

Segundo a Secretária de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Célia Leão, a situação não está favorável. “O mercado de trabalho está difícil para toda a sociedade. Ele já estava difícil nos anos anteriores, mas a pandemia piorou essa situação. Infelizmente a corda estoura sempre no mais fraco, aquele que está mais vulnerável e que tem menos portas abertas no mercado de trabalho por ainda ser visto como alguém com menos competência”, lamenta a Secretária. 

Leão ainda reforça que é essa ideia de “menos competência” que precisa, com urgência, ser desatrelada ao trabalhador com deficiência. “Esse sentimento equivocado a gente tem que tirar. O trabalhador é uma pessoa! Se eu contrato uma pessoa amputada de um braço e com baixa visão que gosta de informática e sabe tudo sobre, ela vai conseguir realizar o trabalho que se encaixa no seu perfil”, finaliza.

A Analista de Recursos Humanos Mirian Rocha, que trabalha ativamente na inclusão destes profissionais na instituição em que atua, reforça o ponto de vista da Secretária. “São pessoas extremamente competentes e essa quebra de paradigma tem que existir nas empresas. De uma forma geral, a sociedade é muito preconceituosa e isso me fere. A pessoa com deficiência vai executar a tarefa, às vezes com um tempo mais longo, mas ela vai realizá-la. Então porque não incluí-la no mercado de trabalho como todas as outras?”, reforça.

Sobre o dia a dia das pessoas com deficiência nas empresas, ambas acreditam que é necessário que todo aquele ambiente se adapte não só física, mas comportamentalmente. “Esse trabalho de conscientização com os líderes diretos, com os colaboradores, é muito importante, se não entra uma outra questão: pela deficiência, muitos trabalhadores PcD tendem a se sentirem inferiores, e aí você imagina, aquele sentimento de inferioridade, por conta da vida, dos olhares, aí ele entra para trabalhar, dá o seu melhor e alguém dá risada. Isso não pode existir! E aí que entra a questão da inclusão, do respeito”, 

Qual a importância da inclusão?

Simone está há 10 anos no mercado de trabalho. Já trabalhou em supermercado, farmácia, universidade e agora é auxiliar de limpeza. Simone gosta muito do atual emprego e para chegar até ele precisa pegar apenas um ônibus. “Pego ônibus e chego rapidinho”, conta.

Simone Menis é deficiente intelectual e há 10 anos atua no mercado de trabalho | Foto: Arquivo Pessoal

O nome completo da trabalhadora acima é Simone do Carmo Menis, ela é deficiente intelectual e é uma das pessoas com deficiência que compõem hoje o mercado de trabalho em São Paulo. Há 5 anos ela divide as funções de limpeza com uma colega, a qual, segundo ela, a trata com muito carinho e paciência, assim como os demais colegas. “A menina que trabalha comigo é bem legal, bem boazinha. Ela me orienta bastante. Lá é bem tranquilo, serviço bom. As pessoas são legais, os funcionários me tratam bem, todo mundo gosta de mim, me respeitam. Eles também me elogiam, elogiam a minha unha. Falam que eu trabalho bem, que eu não paro”, comenta Menis com a voz cheia de felicidade.  

A trabalhadora comenta ainda que já trabalhou em ambientes mais difíceis, mas que hoje se sente bem acolhida e orientada. “Às vezes tem umas pessoas folgadas, meio chatinhas. Teve uma vez que entrei em um trabalho e foram me jogando de um lado para outro, de uma pessoa para outra, sem orientação”, relembra.

Contudo, apesar de ter passado por algumas situações desagradáveis, Menis diz que gosta muito de trabalhar e que vem aprendendo muitas coisas durante a sua trajetória profissional. “Tem que trabalhar direitinho, fazer tudo que o pessoal pede, não ficar respondendo chefe e nem ficar alterando a voz. Tem que se controlar. Eu aprendi tudo isso, a vida vai ensinando”, diz. 

Sobre as motivações que a levam a trabalhar todos os dias, está a independência financeira. “Eu não gosto de ficar dependendo da minha irmã. Ela tem uma condição financeira boa, mas eu não quero depender dela. É ruim depender dos outros, né? É bom ter o nosso dinheiro”, finaliza.

Quais as maiores dificuldades?

Além da visão repleta de preconceito ainda presente na população e nas empresas, a Secretária aponta outras duas razões que infelizmente dificultam o acesso das pessoas com deficiência ao mercado de trabalho: a escolaridade e a superproteção da família.

De acordo com o artigo 27 da Lei Nº 13.146, de 6 de julho de 2015, “é dever do Estado, da família, da comunidade escolar e da sociedade assegurar educação de qualidade à pessoa com deficiência, colocando-a a salvo de toda forma de violência, negligência e discriminação”. Segundo a Secretária, a questão da escolaridade das pessoas com deficiência vem se alterando, especialmente graças às leis de inclusão, mas no momento ainda colhemos tristes frutos passados. “Algumas crianças com deficiência, de duas ou três décadas passadas, não iam para a escola. Era uma mentalidade de ‘você tem deficiência, você não precisa estudar’. Essas pessoas eram impedidas de tudo, não só daquilo que não conseguiam fazer”, lamenta.

Já com relação à superproteção, as três entrevistadas pontuaram a questão, mostrando o quanto a insegurança das famílias ainda é grande diante da realidade atual. “Muitas vezes o amor é tão grande, que as famílias querem blindar a pessoa com deficiência. Porém, nisso, elas acabam tirando das pessoas a oportunidade de aprender mais coisas. Você tira dela a oportunidade de ela conseguir, por si só, se virar e fazer essa ou aquela coisa”, pontua Leão.

Menis conta que, quando surgiu a ideia e possibilidade do seu primeiro emprego, o pai ficou inseguro.”O meu pai não queria não. Ele falava ‘Ah mas ela vai pegar ônibus, é perigoso’. Mas a minha irmã conversou com o meu pai e disse que eu precisava desenvolver. O meu psiquiatra falou que era uma coisa boa, aí ele foi deixando. Agora eu ando São Paulo toda. Pego ônibus e chego rapidinho”, conta a auxiliar de limpeza.

Rocha relembra o caso de uma funcionária que, durante os primeiros dias de trabalho, a mãe ligava sempre para o setor de Recursos Humanos para saber como a filha estava e ressalta que, apesar do dia a dia corrido das empresas, esse olhar humano precisa ser trabalhado, tanto com os funcionários com deficiência como com suas famílias. “A mãe ligava para nós do RH, para saber como a filha estava. Aos poucos ela foi criando o vínculo, pois nós também víamos que essa mãe tinha a preocupação dela. Acho importante a empresa acolher também a família, essa mãe também precisa ser acolhida, saber que a filha está bem. Eu acho que esse contato é importante”, finaliza a Analista de Recursos Humanos.

Iniciativas em prol da inclusão em São Paulo

Programa Trabalho Inclusivo

Programa do Governo de SP que tem como objetivo promover a inclusão, permanência e desenvolvimento profissional de pessoas com deficiência no mercado de trabalho.

TODAS in-Rede

Tem o objetivo de incidir na promoção de empoderamento e emancipação das mulheres com deficiência do Estado de São Paulo, visando a favorecer a melhoria da qualidade de vida e inclusão social.

Sebrae Delas

Criado para fortalecer o empreendedorismo feminino com foco no despertar para o autoconhecimento, aumento da rede de contatos e da competitividade dos negócios. Atualmente está com inscrições abertas para um curso de empreendedorismo para mulheres com deficiência. As interessadas devem se inscrever até o dia 10 de maio.

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