O que é a inflação e por que afeta diretamente o dia a dia dos brasileiros?

Conversamos com André Braz, que é economista e Coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do FGV IBRE

Inflação
Inflação - Shutterstock

por Gabriela Campos
Publicado em 30/05/2021 às 14:00
Atualizado às 14:00

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Terror do início dos anos 90, a inflação é um assunto que percorre a história do Brasil há anos e que vem, ano após ano, dia após dia, mordendo partes dos salários dos brasileiros. 

Para entendermos um pouco mais sobre o que é a inflação e por que cargas d’água ela afeta tanto a vida dos brasileiros, conversamos com André Braz, que é economista e Coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do FGV IBRE.

O que é a inflação e por que ela está sendo tão falada hoje?

Uma passada pelos corredores do supermercado já demonstra perfeitamente o que é a inflação: o aumento generalizado do nível de preços. Dessa forma, entende-se que a inflação nada mais é do que um termo econômico utilizado mundialmente para denominar este aumento generalizado.

Contudo, a inflação não é necessariamente algo ruim. Quando este aumento é algo previsto, dentro das metas do país, a economia segue o seu fluxo perfeitamente e de maneira equilibrada. Porém, esta não é a realidade atual do Brasil. 

Segundo Braz, hoje, algumasrazões estão impactando o aumento da inflação no país, como o aumento do preço dos insumos, a desvalorização do real e também o desemprego. “Se a indústria vai comprar soja para produzir óleo, por exemplo, mas a soja está mais cara, consecutivamente o óleo de soja fica mais caro também, já que o custo daquela produção aumenta”, explica. 

Você pode estar se perguntando aí: “mas o Brasil não produz muita soja, por que precisamos comprar esse tipo de produto?”. Sim, o Brasil produz MUITA soja! Mas, conforme pontua Braz, com a desvalorização do real, os produtos brasileiros, inclusive a soja, torna-se mais atraente para o mercado internacional, o que faz com que o país passe a exportar mais e fique desabastecido, tendo, assim, que importar estes produtos (os quais estarão mais caros por conta da alta do dólar). Uma coisa puxa a outra e quando esse movimento acontece com mais de um tipo de produto é que sentimos o peso negativo da inflação.

Quem mais sofre com a inflação?

Braz é bem cirúrgico nessa resposta: quem mais sofre com a inflação são as famílias de baixa renda. “À medida que a inflação aumenta, ela vai comendo o valor do dinheiro e é aí que ela piora a situação das famílias, mais ainda a das famílias mais pobres, pois elas normalmente têm menos defesa do processo inflacionário. Ganham pouco e não tem como proteger o dinheiro da inflação”, pontua o economista.

Para entender melhor aqui, vamos utilizar uma situação hipotética em que Lucas é um trabalhador que, em 2020 e 2021, manteve-se empregado, contudo, não teve a correção do seu salário de acordo com a taxa de inflação anual. A indústria na qual Lucas trabalha está passando por maus bocados e um reajuste em seu salário agora, mesmo que apenas para equilibrar com a inflação, seria o golpe final no financeiro da empresa. Lucas gasta todo o seu salário com despesas essenciais, como pagamento do aluguel, compra em supermercado e transporte, então não sobra nenhum real para ele poupar, investindo em algum tipo de recurso que acompanhe a inflação e proteja o valor do seu dinheiro. Dessa forma, se o salário do Lucas não foi reajustado, mas o valor de todas as suas despesas essenciais subiu, uma boa parcela do dinheiro que ele tem para passar o mês será “comida” pela inflação, já que seu salário mensal não está acompanhando o movimento do mercado. 

Esse movimento faz com que o salário de Lucas perca cada dia mais o valor, uma vez que se antes ele conseguia suprir todas as suas necessidades básicas com os R$1 mil que recebia, hoje, com o aumento generalizado dos preços e a estagnação do seu salário, ele precisa de mais do que isso para dar conta de fechar o mês no azul. É como se os R$1mil passassem a valer R$850. 

O que fazer para tentarmos sair dessa?

Se a sua mente foi correndo em direção àquelas imagens do início dos anos 90, com famílias correndo aos mercados e enchendo os carrinhos de maneira descontrolada para garantir a chamada “compra do mês” assim que o salário caía na conta, esqueça, o conselho de Braz vai bem longe disso! De acordo com o economista, nós temos alguns deveres de casa a serem feitos que podem ajudar.

“Se um produto fica mais caro e a gente insiste em comprar aquele produto, é como se a gente estivesse concordando com aquele aumento. Então, se um produto X ficou mais caro, é simples, evite comprar aquilo. Se for possível substituir, substitua. Quando renunciamos um produto que está caro, estamos dizendo ao mercado que o nível daquele preço a gente não concorda e, independentemente do que levou o valor daquele produto a subir, se você abrir mão dele a tendência é que ele fique mais barato”, explica.

Braz ainda reforça que isso não significa que você precisa parar de comprar arroz ou feijão por estarem mais caros, por exemplo, mas comprar apenas exatamente o que você vai precisar, sem desperdícios. “Se a pessoa compra um monte, com medo de novos aumentos, ela está dando a seguinte mensagem ao mercado: pode continuar subindo os preços que eu estou gostando. E à medida que elas compram mais e mais, acaba faltando para algumas famílias, o que também é uma mensagem ao mercado de que o preço deveria subir. O ideal é comprar apenas o que precisa, sem desperdícios”, finaliza.